No último sábado, 8 de março de 2025, o Sambódromo da Marquês de Sapucaí ficou marcado pelo Desfile das Campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro. As seis melhores escolas de samba do Grupo Especial retornaram à avenida para celebrar e reviver os momentos mais marcantes de seus desfiles.
Seis agremiações voltaram à Sapucaí neste sábado de desfile das campeãs, que só chegou ao final quando o sol da manhã de domingo já havia surgido, para encerrar o Carnaval 2025.
Com camarotes e arquibancadas lotadas, a Sapucaí sediou uma noite de glória do carnaval carioca. Na avenida, Estação Primeira de Mangueira, Unidos da Portela, Unidos da Viradouro, Imperatriz Leopoldinense, Acadêmicos da Grande Rio e Beija-Flor de Nilópolis mostraram mais uma vez porque merecem seus títulos de campeãs em 2025.
O evento, que teve início às 22h, contou com a participação especial de artistas renomados como Iza, Ivete Sangalo, Zezé Motta e Leci Brandão, que se apresentaram em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, tornando a noite ainda mais especial.
Confira os destaques do desfile das campeãs de 2025!
Estação Primeira de Mangueira
Sexta colocada na classificação, a Mangueira abriu a noite trazendo de volta à Sapucaí o enredo em que homenageou os povos bantus que se enraizaram no Rio de Janeiro. Com a potência de sua bateria, a Verde e Rosa foi muito aplaudida pelo público, mostrando que, mesmo não chegando às primeiras colocações, segue como uma das escolas mais queridas do carnaval carioca.
À Flor da Terra – No Rio da Negritude Entre Dores e Paixões
O desfile da Mangueira trouxe a história da chegada dos povos bantus ao Rio de Janeiro e sua importância na cultura da cidade. Na apresentação, a Verde e Rosa retratou como a cultura banto se inseriu no Rio de Janeiro e fez parte da construção da identidade carioca. As palavras, as danças e a religiosidade foi representada por todo o desfile, que também mostrou como esses elementos foram sendo absorvidos e transformados ao longo dos anos.
“O Rio de Janeiro continua Banto”
Assim como no desfile da segunda-feira, a comissão de frente arrancou aplausos da Sapucaí com a transformação da comunidade bantu – representada por atores que tiravam faísca dos pés em uma coreografia – na favela dos “crias”, que entregaram muita energia dançando passinho, com a bateria da verde-rosa adicionando a batida do funk ao samba-enredo.
A bateria foi o grande destaque do desfile deste sábado. Com muitas variações e cheia de energia, entregou também um show de fogos de artifício, que ficou ainda mais bonito quando as luzes da avenida foram alteradas para tons verde e rosa.
O desfile fez uma mistura entre o tradicional e o moderno, com diversas representações da cultura negra carioca através dos anos, como cortiços, símbolos religiosos e uma alegoria dedicada ao funk. Em um dos letreiros eletrônicos, a escola reforçou sua mensagem: “O Rio é originário, o Rio é do Gueto, o Rio é Banto”.

Portela
Como não poderia ser diferente, o grande destaque do desfile que homenageou Milton Nascimento foi a música. Com sua bateria poderosa e o samba na boca do povo, a Portela reverenciou a lenda viva da MPB na avenida.
“Cantar será buscar o caminho que vai dar no Sol – Uma homenagem a Milton Nascimento”.
Sem focar na biografia do cantor, o enredo da Portela teve como direcionamento a forma como a obra de Milton toca a vida dos brasileiros. Com desfile formatado como uma procissão, a agremiação levou Bituca a ser ovacionado por toda a Sapucaí em seu altar. Em suas redes, o artista declarou após a apresentação de terça-feira: “Hoje é o melhor dia da minha vida”.
Uma homenagem confusa
A presença de Milton Nascimento no último carro foi o ponto alto do desfile. Vestido de branco e sentado em um altar dourado, o artista foi ovacionado por toda a Sapucaí. A cada trecho em que passava, os aplausos soavam mais fortes que a bateria.
Além desta, outra alegoria que se destacou na apresentação trouxe duas esculturas do cantor, uma jovem e outra idoso. Capas de álbuns como Tambores de Minas, Milagre dos Peixes Ao Vivo e Yauaretê adornaram o carro, junto a faixas com trechos de letras. Contudo, a disposição das imagens e dos textos, um tanto escondidos, prejudicaram a leitura.
Com fantasias marcadas pela presença forte do azul e do dourado, o desfile se mostrou confuso, com Milton e sua obra aparecendo pouco ao longo de toda a apresentação, e símbolos da cultura mineira tendo mais espaço.
A bateria da Portela iniciou o aquecimento repetindo o sucesso do desfile da terça-feira, tocando “Maria Maria” com a Sapucaí cantando em peso. A ala musical se apresentou com toque pesado, entregando muita energia em sua passagem. Sempre que faziam a pausa do samba-enredo, a avenida bradava: “Quem acredita na vida não deixa de amar”.

Unidos da Viradouro
Com um enredo que apresentou uma figura religiosa que é também parte importante da história do Brasil, a Viradouro trouxe à Sapucaí uma das apresentações mais emblemáticas de 2025. Apostando em cores vibrantes e no uso de recursos tecnológicos, a escola brilhou na avenida no retorno ao desfile das campeãs.
“Malunguinho: O Mensageiro de Três Mundos”
O enredo da Viradouro falou sobre liberdade e resistência, trazendo a entidade e líder quilombola Malunguinho como tema. O desfile dividiu a jornada em três estágios, falando sobre João Batista em sua jornada pelo Quilombo do Catucá, depois sua passagem como caboclo curandeiro, que aprende sobre as ervas medicinais com os indígenas e, por último, sua transformação em Exu Trunqueiro, entidade da Jurema Sagrada que abre caminhos.
Cores vivas e movimentação
O enredo de fácil leitura trouxe uma síntese da história já no primeiro carro. Em uma performance teatral, Malunguinho é caçado, agredido, curado pelas ervas e recebe sua coroação como Exu Trunqueiro. Além de uma coroa que emerge do chão, chamas e drones vestidos com chapéus trouxeram movimentação cênica à comissão de frente.
O uso de holografia na chave do Exu Trunqueiro de um dos carros foi uma das novidades do desfile original, que seguiu impactante no retorno da escola à Sapucaí. Elementos como folhas, penas, coroas e flechas representaram a simbologia do enredo com maestria.
A escolha de cores para as alegorias e fantasias deixou o desfile da Viradouro brilhante. Aproveitando os recursos visuais da iluminação da Sapucaí, tons vívidos de verde, laranja, preto e dourado pintaram os adereços com muitos signos e motivos ligados à cultura afro-indígena.

Imperatriz Leopoldinense
A Verde e Branco voltou à avenida com seus carros alegóricos imponentes e sua bateria poderosa, acompanhada do canto incessante dos membros da escola e do público da Sapucaí. Com uma performance de destaque, a Imperatriz Leopoldinense reforçou os motivos de sua presença entre as campeãs de 2025 com o desfile.
“Ómi Tútú ao Olúfon – água fresca para o Senhor de Ifón”
O enredo narrou a trajetória de Oxalá, o pai de todos os orixás, que é preso após uma traquinagem de Exu, enquanto se dirigia para uma visita a Xangô. Após sete anos, o Senhor da Justiça vai em busca de respostas para o sumiço da entidade e resolve a questão.
Tons de branco na avenida
Com alegoria que chamou atenção pelo uso de cinco mil litros d’água, a comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense simulou o banho de Oxalá, em performance que fez a Sapucaí inteira aplaudir outra vez. O carro trouxe muitas movimentações de seus elementos, e uma riqueza de detalhes que se fez presente em todo o desfile.
Embora a Imperatriz Leopoldinense tenha explorado bem o colorido em sua apresentação, foi o branco de Oxalá que mais apareceu. As diversas variações de tonalidade exibidas ao longo do desfile dialogaram com o enredo e trouxeram uma beleza singular para a escola.

Grande Rio
A Grande Rio fez um desfile histórico na Sapucaí. Com alegorias incrivelmente detalhadas, a apresentação beirou a perfeição. Juntando tradição, religiosidade e a mitologia paraense, a agremiação passou pela avenida com maestria, deixando sua marca no carnaval 2025.
“Pororocas parawaras: as águas dos meus encantos nas contas dos curimbós”
No desfile, o folclore, a religiosidade, as tradições e a música do Pará foram representadas em enredo que teve a pororoca — fenômeno do encontro entre das águas do rio com o mar, cenário de diversos mitos amazônicos — como fio condutor.
Um desfile luxuoso
Em performance luxuosa, o desfile da Grande Rio impressionou pela riqueza de detalhes dos carros e das fantasias. Com referências à tradição amazônica e à cultura paraense, a apresentação incluiu simbologias indígenas, barcos dos pescadores, danças tradicionais, festas de aparelhagens e a riqueza da fauna e da flora em suas alas e alegorias, onde os tons de verde e azul se destacaram.
À frente de uma bateria com balanço único, Paolla Oliveira realizou seu último desfile como rainha, cheia de sorrisos e vestida em uma deslumbrante fantasia prateada adornada com luzes azuis. Durante sua passagem, foi muito aplaudida e filmada pelo público.
No último carro da agremiação, uma crítica ao resultado da classificação das escolas: No alto da alegoria, um dos integrantes trazia a faixa “Campeã injustiçada do Carnaval 2025”.

G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis
Vencedora que quase gabaritou as notas do carnaval 2025, a Beija-Flor voltou para a Sapucaí para celebrar o seu griô Laíla e oficializar a despedida de Neguinho da Beija-Flor como seu intérprete. Após 50 anos com a agremiação, o artista se desligou do posto na celebração de seu 15º título conquistado junto da escola de Nilópolis.
Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas
Luiz Fernando Ribeiro do Carmo (1943-2021) foi um dos maiores nomes do carnaval brasileiro, com quem a Beija-Flor conquistou 13. Apelidado de Laíla, o artista é parte da história da escola de Nilópolis, fazendo parte de diversos momentos históricos da agremiação. O enredo foi dividido em duas partes, falando sobre sua religiosidade e sua carreira.
A passeata da vitória
Marcado por muita emoção, o desfile teve início já na manhã de domingo, com a Beija-Flor entrando na avenida com a taça de campeã à frente da escola. Com a Sapucaí em êxtase, a agremiação brilhou com suas fantasias exuberantes e seus integrantes distribuindo sorrisos.
Neguinho da Beija-Flor desceu do camarote rumo ao encontro com sua escola já sendo aplaudido pela Sapucaí, enquanto o samba-enredo da Grande Rio ainda era cantado. Quando seu nome foi anunciado, antes do desfile, recebeu mais uma chuva de aplausos. E, assim, louvado ao lado da bateria da Azul e Branco, o artista se despediu com louvor de seu posto.
Sem a iluminação cênica da Sapucaí, é inegável que a agremiação desfilou com um pouco menos de brilho. Apesar do detalhe, a Beija-Flor encerrou o carnaval carioca com uma verdadeira passeata da vitória, em um desfile que entrou para a história da agremiação.
